Eleições Não Derrubam Ditaduras
As eleições são frequentemente consideradas um símbolo da democracia,
representando a vontade do povo e a possibilidade de mudança pacífica
de governo. No entanto, em contextos de regimes autoritários, essa visão
é muitas vezes ilusória. A crença de que eleições podem efetivamente
derrubar ditaduras é, na maioria das vezes, uma falácia. Regimes
autocráticos frequentemente organizam eleições não para promover a
democracia, mas para reforçar seu controle e legitimar sua permanência
no poder. Este texto explora como e por que as eleições muitas vezes não
resultam em mudanças significativas em contextos autoritários,
apresentando exemplos práticos que ilustram essa dinâmica.
A Natureza das Eleições em Regimes Autocráticos
Em muitos países onde a ditadura prevalece, os líderes autocráticos
realizam eleições que parecem democráticas, mas que são, na verdade,
manipuladas para garantir a vitória dos incumbentes. Essas eleições
costumam ocorrer em ambientes onde a oposição é silenciada por meio
de prisões, intimidações e repressão. Os meios de comunicação
frequentemente estão sob controle estatal, limitando a disseminação de
ideias alternativas Um exemplo claro é o da Venezuela, onde o governo de Nicolás Maduro
tem sido acusado de fraudes eleitorais sistemáticas. As eleições ocorrem
regularmente, mas sob condições altamente controladas. A liberdade de
expressão é limitada, o acesso à mídia é monitorado, e os principais meios
de comunicação trabalham a favor do governo. Os opositores enfrentam
perseguição constante, prisões arbitrárias e limitações severas para
realizar campanhas eleitorais. Os resultados, portanto, acabam sendo
reflexo não da vontade do povo, mas de um sistema estruturado para
manter o governo no poder. Essa situação se reflete na crescente
descrença da população em relação à democracia e no fortalecimento de
um regime que já perdeu sua legitimidade.
Em Moçambique, a situação também expõe uma crise de democracia.
Durante as recentes eleições, testemunhamos o uso de força
desproporcional pelas autoridades, com o envio de unidades policiais
armadas e até helicópteros para intimidar os cidadãos. A repressão incluiu
o uso de AK-47 e gás lacrimogéneo contra manifestantes, e o próprio
ambiente eleitoral foi dominado pelo medo e pela coação. Para limitar
ainda mais a participação cidadã e a denúncia de irregularidades, o
governo cortou o acesso à internet, garantindo que a comunicação entre
os cidadãos e o mundo externo fosse impossível. A mídia nacional,
controlada pelo estado, apresentou uma visão distorcida dos eventos,
dificultando o acesso a informações neutras e independentes.
Essas práticas têm consequências devastadoras para a confiança nas
instituições e para a noção de democracia como um processo justo e
representativo. Em ambientes onde a manipulação do voto é uma
constante, o povo perde qualquer esperança de mudança real através das
urnas.

